Li na Zero Hora de ontem um texto muito legal sobre o desafio da ética em um meio social tão relativizado. O mais legal, porém, não é o texto em si, mas seu autor: Irmão Firmino Biazus, religioso Marista, diretor do Colégio Marista Rosário, uma das mais conceituadas instituições de ensino daqui de Porto Alegre. Explico: é que o Ir. Firmino, que escreveu este texto, é o mesmo que, lá no final dos anos oitenta, agüentava minhas loucuras no Curso Normal do Instituto de Educação Marista Graças, em Viamão. Ele era meu professor de Ensino Religioso, Filosofia, Doutrina Social da Igreja e História da Educação e, sobretudo, Mestre da Arte de Viver. Sabe aquele professor inesquecível? Este é o Irmão Firmino: exigente na medida certa (mesmo que a medida certa não agradasse a todos), extremamente inteligente, afetivo, justo e criativo. O Firmino não deixava ninguém em paz! Quando concluíamos uma tarefa, vinha ele e dizia: "Poderia ter algo a mais!", ou, ainda "Vocês podem fazer diferente! Vocês não precisam fazer como todo mundo faz!" E o que é ter ética hoje, senão isso: fazer algo a mais, fazer diferença, não fazer o que todos fazem só porque todos fazem? É por isso que, lendo o texto, posso dizer que cada palavra é verdadeira, pois o Irmão Firmino é o tipo de pessoa que vive e faz o que diz (e, apesar de ser muito hábil com palavras, faz mais do que diz), tanto que este não é o primeiro texto dele que encontro na Zero Hora: como diretor do Rosário, ele está preocupando em fazer seu papel na cidade em que vive, ou seja educar a todos quanto puder, lançando mão de todos os meios possíveis. Dá-lhe, Firmino!!! Este teu ex-aluno, da Turma do Bicentenário de nascimento de São Marcelino Champagnat está orgulhoso de ti e com saudades!
Força sempre!
Eis o texto na íntegra:
Ética, valor para a vida inteira
FIRMINO BIAZUS/ Diretor do Colégio Marista Rosário
Para justificar a realidade de nossa época, dizemos que há uma crise de valores da qual somos ao mesmo tempo atores e vítimas. Vivemos momentos de grandes paradoxos: ao mesmo tempo em que a tecnologia facilita a comunicação até hoje inimaginável, desenvolve um individualismo arrogante e egoísta e implanta a globalização de mercado em detrimento do ser humano, das relações sociais, e da natureza.
Como a globalização está relativizando tudo, sistemas, instituições e valores, a pessoa perdeu os pontos de referência e, para se proteger, fecha-se em si mesma e passa a não mais saber o que é permanente e o que pode e deve mudar na vida das pessoas, das instituições e da sociedade. Nesse ambiente está a escola tentando formar cidadãos responsáveis e profissionais éticos e competentes.
Como então apresentar valores permanentes a um jovem, se vivemos num clima de relativismo? Que valores devem ser apontados para que sejam aceitos e possam servir de balizamento para a vida? Cada pergunta é um mergulho ainda mais fundo na crise da qual muitos são vítimas pelos efeitos que produz em muitas mentes, favorecendo sempre mais a necessidade de psicólogos e psiquiatras. E como o problema não é de psicólogo nem de psiquiatra, mas de valores, a pessoa, para manter uma certa tranqüilidade, se locupleta de tranqüilizantes e de antidepressivos.
Tudo isso é fruto de uma grave crise de valores, uma crise de ética que invade a opinião pública e as pessoas vão tomando consciência apenas na medida em que vão sofrendo as conseqüências desta falta que muitas vezes desemboca na corrupção e na depressão.
Hoje, quer-se fazer acreditar que os valores e os princípios éticos de diversas etnias, culturas e civilizações não mais podem conduzir a uma ética de princípios universalmente aceitos. Nasce daí o individualismo exacerbado, que busca exclusivamente a satisfação das necessidades pessoais e prima pela valorização do provisório e do descartável, corrói a solidariedade entre as pessoas e os grupos sociais a ponto de a opinião do mais forte prevalecer sobre a dignidade humana e o valor da vida.
A ética dá significado às relações de cada homem e de todos os homens e ao seu modo de agir; e, por meio da integração e partilha de valores, visa à realização e ao crescimento da pessoa e das instituições. Se o transcendente e a filosofia não impregnarem a vida das pessoas, das instituições e da sociedade, os valores continuarão debaixo das cinzas e a ética ficará sufocada pelas nulidades e pela corrupção.
É preciso voltar a ver o outro como valor máximo; é preciso voltar a ver Deus como fonte de todos os valores, é preciso voltar a reverenciar o mundo como criação-mensagem e não só apreciá-lo como objeto de saber e de poder humanos e promover uma economia, não do consumismo, mas do suficiente centrada na vida da pessoa e voltada para o cuidado com a natureza. Volte a ética a ser a medida justa de todas as nossas relações com os outros, com o transcendente e com a ecologia. Seja a ética o caminho pelo qual avançamos como seres totalmente humanos reconhecendo os valores intrínsecos de todos os seres.